RITUAL DE CASAMENTO
Doris Stoehr Vieira de Souza – psicóloga – CRP 08/04871

            Nesse momento é importante se voltar para o significado de ritual, uma vez que os ritos são meios poderosos para manter vivo o sentimento de pertença a um grupo, para conservar a adesão a seus modos coletivos, para unir mais estreitamente os seus membros e para afirmar e reforçar sua significação e sua estrutura (AZEVEDO, 1987, p.75-76).
            De acordo com SEGALEN (2002, p. 31-32):

 O rito ou ritual é um conjunto de atos formalizados, expressivos, portadores de uma dimensão simbólica.  O rito é caracterizado por uma configuração espaço-temporal específica, pelo recurso a uma série de objetos, por sistemas de linguagens e comportamentos específicos e por signos emblemáticos cujo sentido codificado constitui um dos bens comuns de um grupo...o ritual faz sentido, visto que ordena a desordem, atribui sentido ao acidental e ao incompreensível, confere aos atores sociais os meios para dominar o mal, o tempo e as relações sociais.
           

Os ritos são um conjunto de comportamentos codificados, individuais e coletivos, com suporte corporal (verbal, gestual e de postura), caráter repetitivo e forte carga simbólica.  É fruto de uma aprendizagem, subentendendo a continuidade das gerações ou grupos sociais a que pertence.
            O etnólogo francês ARNOLD VAN GENNEP se interessou pela ligação entre rito e estrutura social e então apropria-se de uma série de manifestações relacionadas ao indivíduo, em ligação com seu ciclo biológico vital, seu ciclo familiar e desenvolve o conceito de ritual de passagem, onde o casamento é um deles.  Para ele, os ritos são compostos por seqüências ordenadas e não podem ser analisados isoladamente, ou seja, um rito ou ato social muda de valor e de sentido segundo ao atos que o precedem e aqueles que o seguem; e para compreende-lo é preciso sempre considerar cada elemento do conjunto em suas relações com todos os outros elementos. (SEGALEN, 2002, p. 44)
            Segundo SEGALEN (2002, p.44) num ritual sempre se distinguem três estados – separação, margem e agregação – de acordo com o ato celebrado.  O casamento é um rito de agregação uma vez que une duas famílias.  E entre cada um desses estados existe a etapa do estado intermediário.  Como exemplo aqui, o noivado, “com o objetivo de selar a aliança virtual entre as duas famílias e o casal poder ter maior liberdade de convívio”. (AZEVEDO, 1987, p. 53)
            Outro etnólogo, PIERRE BORDIEU propõe substituir o rito de passagem pelo rito de legitimação. De consagração, de instituição, onde evidencia o poder das autoridades que o instauram.  “É menos a passagem que conta, do que a linha que separa um antes de um depois, linha de diferença entre dois grupos preexistentes.  O rito não faz passar, mas institui, sanciona, santifica a nova ordem estabelecida”.  (SEGALEN, 2002, p. 50)
            Ou seja, quer o rito “institua” ou “faça passar”, ele não pode ser auto-administrado, “ele necessita de uma autoridade superior, seja a Igreja, o Estado ou um representante leigo do poder relativo à manifestação”.  (SEGALEN, 2002, p. 53)
Neste momento lembro de vários casais que fizeram entre si algum ritual de casamento, sem ter o aspecto civil ou religioso, e mesmo assim, após algum tempo optaram por formalizar este casamento.
O ritual é maleável, ou seja nele existe sempre uma certa margem de manobra de acordo com a época em que ocorre.
A partir dos anos 70 a vida familiar sofreu grandes transformações, uma diz respeito a diminuição no número de casamentos.  Houve uma retirada da vida afetiva e conjugal do espaço público.  O casal passa a ter novas expectativas e se recusa a sofrer  interferência do Estado pois os parceiros passam a se sentir livres para acabar com o casamento quando tiverem vontade.  O compromisso passa a ser contratado pelos próprios parceiros. 

A coabitação é de toda evidência um fator maior da evolução do ritual de casamento...a maioria dos casamentos celebrados é precedida de um período de coabitação ou até mesmo de nascimento de filhos.  Aquilo que marcava o casamento de outrora, ou seja, a transferência da mulher para uma nova moradia, o acesso à sexualidade e ao estatuto de adulto são etapas sociais ultrapassadas já há muito tempo.  (SEGALEN, 2002, p.120)

Surgem então estilos diferentes de ritual de casamento:  o “tradicional” onde o casamento se realiza sem coabitação prévia, com uma festa e uma cerimônia religiosa.  Os parentes têm um papel importante na sua organização.  Outra forma é a do casamento após a coabitação onde a festa e a cerimônia religiosa são mais raras, geralmente são organizadas pelo próprio casal com menor número de convidados.  Porém, alguns casais que já moram juntos exigem uma celebração religiosa, o que traduz um desejo de oficializar a união através de um rito simbolicamente forte, de conteúdo social reconhecido e apreciado pelos ascendentes.  E por fim, um outro modelo que é o de casamentos desritualizados, onde já nasceu um filho ou um dos cônjuges é divorciado.  A celebração é modesta, centrada nos cônjuges e amigos, muitas vezes realizada na própria casa do casal sem cerimônia religiosa.  (SEGALEN, 2002, p.120 -121)   
            De acordo com LOPES et al (2006) há uma pressão social relacionada à existência do ritual de casamento e a função deste ritual é a de ajudar o casal a se ajustar a essa nova vida, a de casados, sendo que os comportamentos esperados em nossa sociedade são diferentes dos de uma pessoa solteira.  Marca também a passagem para a adultez e para a possibilidade de parentalidade.   Representa uma mudança de status na sociedade, onde o homem e a mulher passam a ser esposo ou esposa assim se comprometendo social e emocionalmente.
            ANTON (2002, p.29) afirma que:

Um casamento implica mudanças substanciais, não apenas na vida do novo par, mas também na de suas famílias e, em uma certa extensão, na de seus amigos.  Lugares e funções modificam-se.  Filhos e irmãos passam a ser genro ou nora, marido ou mulher, cunhado ou cunhada.  Novas formas de funcionamento e autonomia consolidam-se.  Há escolhas e há renúncias.  Há ganhos e há perdas.  Há mudanças, e estas afetam a todas as partes mais diretamente envolvidas, seja por parentesco ou por afetividade.

Segundo KROM (2000, p.31), o ritual pode produzir novas condutas, ações e significados e é um sistema de intercomunicação simbólica entre o nível do pensamento cultural e complexos significados culturais por um lado, e a ação social e o acontecimento imediato por outro. Ou seja, através do ritual podem haver grandes possibilidades de transformação, uma vez que ele pode combinar a comunicação analógica e digital e fornecer a oportunidade de expressar e experimentar o que não se pode colocar em palavras.  Assim, pode-se favorecer a reorganização de relacionamentos colaborando para modificações de aspectos relacionados à mitologia familiar.
            Aqui cabe citar CARTER e McGOLDRICK (1995, P. 129) onde afirmam que a família é veículo ativo nos ritos de passagem e que influencia e muito o resultado dessa passagem.

Quando os membros da família conseguem manter seu olhar no processo familiar que contribui para o rito de passagem que está ocorrendo naquele determinado momento, assim como observar como esses processos funcionam durante o rito de passagem, está família está numa posição em que pode influenciar tanto a efetividade da passagem quanto o seu próprio sistema emocional.  (CARTER e McGOLDRICK, 1995, P. 129 – 130) 
           
Ainda afirmam que a época da organização do casamento é o melhor momento para a intervenção preventiva familiar, uma vez que os casamentos são as únicas cerimônias maiores organizadas pela própria família.  Ou seja, quem fará quais arranjos, quem será convidado, quem comparece, quem paga, quem fica aborrecido, etc, tudo isso reflete o processo familiar e nessa época muito se pode saber sobre o funcionamento do sistema (CARTER e McGOLDRICK, 1995, p.195).

REFERÊNCIAS
 ANTON, I. L. C.  Homem e Mulher:  seus vínculos secretos.  Porto Alegre:  Artmed Editora, 2002.

AZEVEDO, T.  Ciclo da Vida – Ritos e Ritmos. São Paulo:  Ática, 1987.

CARTER, B. e MCGOLDRICK, M.  As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar:  uma estrutura para a terapia familiar.  Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese.  2. ed.  Porto Alegre:  Artes Médicas, 1995.

KROM, M.  Família e Mitos.  Prevenção e terapia:  resgatando histórias.  São Paulo:  Summus, 2000.

SEGALEN, M.  Ritos e rituais contemporâneos.  Trad. Maria de Lourdes Menezes.  Rio de Janeiro:  Editora FGV, 2002.