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Papéis Masculinos e Femininos no Casamento, Expectativas e Significados.

Papéis Masculinos e Femininos no Casamento, Expectativas e Significados.

Doris Stoehr Vieira de Souza – psicóloga – CRP 08/04871


Nas sociedades tradicionais havia total ausência de afeto entre marido e mulher.  Cada um tinha suas tarefas a cumprir e eram julgados pela comunidade de acordo com o cumprimento ou não dessas tarefas.  Aos homens cabia serem dominadores, aterradores na sua autoridade patriarcal, egoístas, brutais e nada sentimentais; as mulheres deveriam ser leais, apagadas e submissas.  Ou seja, esta desigualdade emocional de papéis geraram uma distância sentimental que era intransponível entre o casal. (SHORTER, 1975, p. 88)Com o surgimento da ideologia burguesa, a teoria da família baseava-se no postulado de que os papéis masculinos e femininos eram instrumentais e expressivos, respectivamente, sendo incompatíveis, ou seja, não podiam ser desempenhados pelo mesmo sexo.  Por instrumental se entende a ligação com a sociedade, prover a família de bens materiais; exercer uma profissão e ser o ganha pão da família.  Por outro lado, o papel expressivo, exclusivamente feminino, já que para esta visão era a mulher que exprimia melhor a vida afetiva da família, estando mais próxima dos filhos do que o pai, cabia as tarefas domésticas e o cuidado com as crianças. (MICHEL, 1983, p. 85)Este pensamento cai por terra quando nos reportamos à estrutura da família contemporânea.  Vivemos em uma época em que os papéis instrumentais e expressivos são compatíveis na mesma pessoa.  Ou seja, tanto o homem quanto a mulher podem desempenhar ambos os papéis.  Não é a diferenciação dos papéis masculinos e femininos que vai levar ao sucesso no casamento, muito pelo contrário, a flexibilidade dos papéis dos cônjuges é que traz a possibilidade de uma maior integração, comunicação, planejamento de vida e resolução de problemas do casal.As expectativas com relação ao casamento parecem ser diferentes para o homem e para a mulher.           De acordo com CARTER e MCGOLDRICK (1995, p.18) as mulheres tendem a ver o casamento com entusiasmo, embora estatisticamente ele não tenha sido um estado saudável para elas, enquanto que os homens tem o medo de ser “apanhado numa armadilha”, mas eles se saem melhor no estado casado, em termos psicológicos e físicos, do que as mulheres.Apesar do estereótipo cultural de que o casamento é algo que os homens devem temer, todos os resultados de pesquisas realizadas dizem o contrário, “que de todas as maneiras, o casamento melhora a saúde mental dos homens, enquanto em quase todos os aspectos, mentalmente, fisicamente, e mesmo nas estatísticas criminais, as mulheres solteiras são mais sadias do que as casadas”. CARTER e MCGOLDRICK (1995, p.185)Segundo pesquisas, as mulheres consideram o casamento como uma oportunidade de se aproximarem mais de suas famílias de origem, com os homens é o contrário.De acordo com CARTER e MCGOLDRICK (1995, p.40): Durante o namoro, os homens querem passar mais tempo com as mulheres de uma maneira que aumenta o senso de intimidade da mulher, depois do casamento eles tendem a passar cada vez menos tempo conversando com as esposas, muitas vezes considerando que fazer coisas na casa seja uma demonstração adequada de cuidado e intimidade, e sentindo-se mistificados com relação ao que as mulheres querem quando buscam maior contato e intimidade no relacionamento conjugal.As mulheres admitem mais problemas e avaliam seus relacionamentos.  Para os homens o que é importante é a responsividade sexual de suas esposas e os interesses compartilhados enquanto que as mulheres esperam que eles se relacionem bem com suas famílias e amigos.  Os homens avaliam como bom o casamento no que se refere a comunicação conjugal, relacionamento com os pais e relacionamento sexual.  As mulheres classificam como problemáticos todos estes aspectos.  As mulheres esperam fidelidade dos maridos e estes esperam mais a fidelidade de suas esposas do que de si próprios.  CARTER e MCGOLDRICK (1995, p.40 – 41)Como solução para estas questões CUSCHNIR (1992, p. 106 – 107) propõe que o casal deve manter a individualidade, onde cada um tem valores próprios a serem satisfeitos; o vínculo não deve estar estruturado somente nos papéis de provedor e provido pois isso vai estimular a imobilidade, impossibilitando o crescimento deste vínculo uma vez que não existirá mais condições dele se alimentar, de receber e trocar energia.CUSCHNIR (1992, p. 112 – 113) afirma que:O paradigma que mantinha o homem no poder e a mulher na desvalorização (um poder pelo avesso), precisa ser quebrado para se obter um novo ponto de equilíbrio, menos rígido e mais proveitoso para todos.  Está sendo aberto, por homens e mulheres, um caminho irreversível para um novo tipo de relação simétrica onde os dois tenham espaço de crescimento e auto-realização.  Estamos caminhando para um fortalecimento dos dois gêneros.  Para a plena afirmação de cada um.REFERÊNCIASCARTER, B. e MCGOLDRICK, M.  As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar:  uma estrutura para a terapia familiar.  Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese.  2. ed.  Porto Alegre:  Artes Médicas, 1995.CUSCHNIR, L.  Masculino / Feminino.  Rio de Janeiro:  Rosa dos Tempos, 1992.MICHEL, A.  Sociologia da família e do casamento.  Trad. Daniela de Carvalho.  Porto:  RÉS-Editora, 1983.SHORTER, E.  A Formação da Família Moderna.  Trad. Teresa Pérez.  Lisboa:  Terramar, 1975.

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História do Casamento

História do Casamento

Doris Stoehr Vieira de Souza – psicóloga – CRP 08/04871


Muito se fala sobre casamento. Em várias áreas encontram-se teorias bastante interessantes sobre este tema. Nada como começar pela filosofia.FOUCAULT afirma que o casamento é “coisa natural” e que essa “naturalidade” do casamento “tinha sido habitualmente fundamentada sobre uma série de razões; o encontro indispensável do macho e da fêmea para a procriação; a necessidade de prolongar essa conjunção numa ligação estável para assegurar a educação da progenitura; o conjunto de ajudas, comodidades e prazeres que a vida a dois, com seus serviços e suas obrigações, pode proporcionar; e, finalmente, a formação da família como o elemento de base para a cidade” (FOUCAULT, 1997, p. 12).Ainda recorrendo à filosofia, Musonius acentua a finalidade “comunitária” do casamento. Para ele, a procriação é importante mas por si só não justifica o casamento uma vez que homem e mulher poderiam se unir, procriar e logo se separar. Se isto não ocorre é pelo fato de ser indispensável a vida em comunidade.Um companheirismo de vida em que se trocam cuidados recíprocos, em que se rivaliza em atenção e benevolência um com o outro, e onde os dois cônjuges podem ser comparados aos dois animais de uma equipagem que não avança se cada um olhar na própria direção. (FOUCAULT, 1997, p. 13 – 14)           Hierocles concorda com esta idéia de Musonius onde afirma que os seres humanos são feitos para viver a dois e para viver também na multiplicidade.O homem é ao mesmo tempo conjugal e social: a relação dual e a relação plural são ligadas. Hierocles explica que uma cidade é feita de casas que constituem seus elementos; mas que, em cada uma, é o casal que constitui, ao mesmo tempo, o princípio e o termo; de modo que uma casa só é completa se for organizada em torno do casal. (FOUCAULT, 1997, p. 17)           Segundo a ótica da filosofia o homem enquanto ser vivo racional e enquanto indivíduo, é um ser conjugal.Os costumes ligados ao casamento variaram muito através dos tempos.A instituição matrimonial surgiu a partir dos “ritos de iniciação que marcavam a passagem da infância para a idade adulta. Nos povos primitivos tais ritos geralmente culminavam com a cerimônia do casamento” (OSORIO, 2002, p. 30).De acordo com OSORIO (2002, p. 30), desde que apareceu a noção de propriedade, o casamento sempre esteve relacionado com a idéia de transação ou troca. Primeiramente a troca física, uma mulher por outra, ou seja, se um homem queria se casar oferecia sua irmã, sobrinha ou serva em troca de uma noiva, assim nem o pai da noiva e nem o noivo ficariam sem alguém para realizar os afazeres domésticos. Depois essa troca física foi substituída pelo equivalente em bens ou dinheiro.LEVI-STRAUSS (1982, p. 519) afirma que:Seja em forma direta ou indireta, seja em forma global ou especial, mediata ou postergada, explícita ou implícita, fechada ou aberta, concreta ou simbólica, é a troca, sempre a troca, que aparece como base fundamental e comum de todas as modalidades da instituição matrimonial.           Ou seja, através desta troca de mulheres, cada grupo dá e recebe outras possibilidades de sobrevivência, ao mesmo tempo em que estabelece relações de interdependência entre os próprios grupos (SARACENO e NALDINE, 2003, p. 126). E aí surge outra função da instituição casamento: a de aliança entre grupos.Nas sociedades de organização patriarcal passou-se a comprar a noiva, ou seja, a mulher era tratada como mercadoria e passa a ser propriedade do marido. Segundo LEVI-STRAUSS (1982, p. 76) “para admitir a equiparação das mulheres aos bens, de um lado escassos e de outro essenciais à vida do grupo, não é preciso evocar o vocabulário matrimonial da Grande Rússia, onde o noivo é chamado “o negociante” e a noiva “a mercadoria”.Surge então o dote, onde se indeniza o noivo ou sua família pelos custos posteriores com a manutenção da esposa (OSORIO, 2002, p. 31).Essas situações foram formas de contrato matrimonial.O casamento sai da esfera místico-religiosa para a do direito civil quando passa a estar subordinado a interesses ligados à propriedade de bens materiais ou patrimoniais.Segundo OSORIO (2002, p. 31):A partir da Idade Média, e por muitos séculos, houve, no mundo                             ocidental, uma acirrada disputa entre o Estado e a Igreja para determinar a quem caberia a prerrogativa de estabelecer o contrato nupcial. Só a partir do advento da Era Contemporânea o poder laico e o religioso passam a exercer sem maiores conflitos suas respectivas esferas de influência nas questões atinentes à instituição do matrimônio.           Na Europa, a partir do século XII, o controle do casamento passa do Império (da legislação civil) para a Igreja. Nesta época se inicia a discussão sobre a sacramentalidade do casamento.A intervenção da Igreja na regulamentação do casamento é de suma importância para a definição da forma matrimonial no ocidente. O Concílio de Trento é a marca deste fator e aponta uma linha de divisão de águas.SARACENO e NALDINE (2003, p. 131) afirmam que:Se antes parecia predominar, por parte da Igreja e do sacerdote, uma função de testemunha do livre consentimento dos noivos, depois do Concílio o sacerdote surge cada vez mais como aquele que “faz” o casamento, para além do facto de, em termos sacramentais, serem os noivos os seus ministros: a ponto de transformar o livre consentimento num acto já não reversível, nem mesmo através de outro acto já não reversível, nem mesmo através de outro acto de livre escolha. O casamento de “indivíduos livres” torna-se assim indissolúvel. O rito matrimonial torna-se por isso mais importante do que a expressão do consenso. Além disso, são introduzidas as publicações, e o espaço de tempo entre a afixação destas e a celebração do casamento permite quer à Igreja quer à comunidade o exercício do seu controlo sobre o casal, verificando eventuais impedimentos e sancionando assim a escolha do casal como acto público.           O Estado então procura substituir a Igreja na regulamentação do casamento, ressaltando a contratualidade por um lado e a relevância civil, ou seja, arranjos de patrimônio e hereditariedade por outro.Surge o Código Civil Napoleônico na Europa onde o casamento, “contrato entre indivíduos livres, é antes de mais um contrato patrimonial, que funda uma hierarquia precisa entre os sexos, em nome, precisamente, da unidade patrimonial da nova família, com base no novo valor atribuído ao indivíduo-homem, proprietário” (SARACENO e NALDINE, 2003, p. 132).Ainda segundo SARACENO e NALDINE(2003, p. 132 – 133):Aqui a irreversibilidade do consenso não diz respeito tanto à irreversibilidade do vínculo, quanto à irreversibilidade da dependência da esposa como resultado da sua livre escolha ao contrair o vínculo conjugal. Sociedade de indivíduos-cidadãos, a sociedade burguesa é antes de mais sociedade de chefes de família, em que os homens se desvinculam tendencialmente da tutela parental (e da tutela da Igreja, na medida em que o casamento civil e religioso são distintos), mas as mulheres podem exercer formalmente a própria liberdade apenas no momento da passagem de uma tutela (do pai) para outra, (do marido).           A partir daí essas duas formas de regulamentação do matrimônio passam a se apoiar, com o objetivo de organizar a sociedade burguesa, ou seja, distinguir as responsabilidades públicas e responsabilidades privadas, que ainda hoje marcam nosso modo de pensar e nossas relações familiares, de casal, com a sociedade e o estado.Muitas foram a formas de constituir as estruturas familiares. Variaram muito de povo para povo, sofrendo as influências do tempo, do meio social e da moral de cada época.REFERÊNCIAS  FOUCAULT, M.  A mulher / os rapazes: História da sexualidade. Trad. Maria Theresa da Costa Albuquerque. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.LEVI-STRAUSS, C. As estruturas elementares do parentesco. Trad. Mariano Ferreira. Petrópolis, RJ: Vozes, 1982.OSORIO, L. C.  Casais e Famílias: uma visão contemporânea. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002.SARACENO, C. e NALDINE, M.  Sociologia da família. Trad. Isabel Teresa Santos. 2 ed. Lisboa: Estampa, 2003.

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Mitos Associados ao Casamento

Mitos Associados ao Casamento

Doris Stoehr Vieira de Souza – psicóloga – CRP 08/04871


O filósofo ERNEST CASSIRER foi o primeiro a dedicar-se ao estudo dos mitos, fazendo conexões entre estes e a linguagem.  Neste contexto, mitologia significa o poder da linguagem sobre o pensamento, “em todas as esferas possíveis da atividade espiritual, sendo este mundo compreendido como o mundo das representações e dos significados” (KROM, 2000, p. 25).Nas sociedades primitivas o mito originou-se das próprias histórias contadas como verdadeiras porque falavam da realidade.  Adquiriam um caráter sagrado e serviam de base para estas sociedades.CAMPBELL, um estudioso contemporâneo da mitologia vê a criação do mito ligada às fases transicionais do desenvolvimento humano.  Em diferentes momentos históricos, “reconhece o mito como metáfora da potencialidade espiritual do ser humano, que se apresenta como um canal de comunicação que está além do próprio conceito de realidade, transcendendo todo pensamento”  (KROM, 2000, p. 27).Para ele os “mitos são sonhos coletivos e não devem ser tomados literalmente.  Eles são metáforas”.  (KELEMAN, 2001, p. 07). Também traz a origem da figura mítica, ou do herói, enfatizando que este é um homem que superou suas limitações, morreu como homem normal e renasce como homem eterno e universal.De acordo com KROM (2000, p. 27):Ao comparar mitologias de sociedades específicas, este profundo estudioso afirma que os grupos geram mitologias específicas de temas que podem ser universais, como as fases de transição no ciclo de vida.  Assim, existem mitos que falam de nascimento, da adolescência, do casamento e da morte.            Na área da Psicologia, FERREIRA é o primeiro psicoterapeuta a estudar a mitologia, e reconhece o mito em uma função defensiva na família.  Define-o como crenças que são sistematizadas e compartilhadas por todos os membros da família.  Essas crenças não são contestadas apesar de incluir distorções evidentes da realidade.  Pesquisadores da Escola de Milão, uma escola de terapia familiar, reconhecem o mito como um fenômeno sistêmico com a função de manter a homeostase do grupo.  Também ressaltam a transmissão intergeracional do mito, afirmando que ele se transmite, modelando os filhos que nascem desse grupo ao longo das gerações.  MAURIZIO ANDOLFI, terapeuta italiano, considera o mito como possibilidade de transformação e como um conjunto de realidades em que existem ao mesmo tempo elementos reais e de fantasia.  Servem à família de acordo com a sua realidade e atribuem a cada membro um papel e destino bem precisos.  (KROM, 2000, p. 27 – 29)No que diz respeito aos mitos associados ao casamento, com o reconhecimento do sentimento do amor como base do sacramento do matrimônio, surge a necessidade da realização amorosa e junto com isso vários mitos, como o Mito da Busca da Unidade Perdida (KROM, 2000, p. 56).  O outro é o responsável pela realização dos sonhos do parceiro.ANDOLFI (2002, p. 16) afirma que homens e mulheres herdam diferentes mitos a respeito do casamento.  Enquanto as mulheres ainda se fascinam com as histórias da Cinderela, da Bela Adormecida, Branca de Neve entre outras, ou seja, que viverão felizes para sempre, para os homens há duas possibilidades míticas:  ou será o “senhor do castelo” ou será nele aprisionado.Surgem então os mitos da felicidade associados ao casamento com base no amor romântico e representados pela célebre frase “casaram e viveram felizes para sempre…”De acordo com ANTON (2002, P. 32) ainda hoje, em pleno século XXI para muitas pessoas o que justifica o casamento é esse amor apaixonado, idealizado, absoluto.  E é o que também justifica o grande número de divórcios e recasamentos resultantes das frustrações vividas.Para a autora, com o passar do tempo a sociedade passou a denunciar esse mito tão citado nos contos de fadas:Não há príncipes nem princesas capazes de, ao se encontrarem, dissolver todos os sofrimentos passados, tornando-se, enfim, felizes para sempre.  Casamento arranjados dessa maneira também parece terem sido banidos, pois a felicidade eterna não foi capaz de se sustentar.  Fica um vazio e a necessidade de preenchê-lo.  Diversos movimentos tentaram erguer bandeiras, apontando novos rumos e novas soluções para um expressivo número de seguidores.  (ANTON, 2002, p. 69)            E aí aparece o “Mito do casal XX”, que vem suprir o vazio da insatisfação do mito “foram felizes para sempre”.  Neste novo mito se admitem conflitos que precisam ser resolvidos, mas o amor fala mais alto.  Tenta-se se encaixar no casamento dito “perfeito”, numa suposta aliança ideal.  Para se encaixar neste mito, ambos os parceiros reprimem e negam seus conflitos, “mascaram ou projetam a responsabilidade sobre eles e o fazem isso inconscientemente”.  (ANTON, 2002, p. 70)De acordo com RELVAS (1996, p. 39) relacionado com este paradigma do “amor romântico” e com os mitos de felicidade, aparecem um conjunto de mitos associados ao casamento:“O nosso amor, o desejo, a paixão, manter-se-á inalterável com o passar do tempo”.“O meu companheiro deverá ser capaz de antecipar todos os meus pensamentos, desejos e necessidades”.“Se me amas de verdade esforçar-te-ás sempre por me agradar”“Amar significa nunca me aborrecer com o meu companheiro”.“Amar significa estarmos sempre juntos”.“Os níveis de sexo, carinho e compromisso presente na nossa relação não diminuirá nunca”.“Devemos estar sempre de acordo em qualquer tipo de assunto”.            Todos estes fatores, além de provocarem uma grande decepção com o relacionamento, impedem a resolução dos conflitos e a adequada evolução da relação conjugal.REFERÊNCIAS ANDOLFI, M.  A Crise do Casal:  uma perspectiva sistêmico-relacional.  Trad. Lauro Kahl e Giovanni Menegoz.  Porto Alegre:  Artmed Editora, 2002.ANTON, I. L. C.  Homem e Mulher:  seus vínculos secretos.  Porto Alegre:  Artmed Editora, 2002.KELEMAN, S.  Mito & Corpo:  uma conversa com Joseph Campbell.  Trad.  Denise Maria Bolanho.  São Paulo:  Summus, 2001.KROM, M.  Família e Mitos.  Prevenção e terapia:  resgatando histórias.  São Paulo:  Summus, 2000.RELVAS, A. P.   O Ciclo Vital da Família.  Perspectiva Sistêmica.  Porto:  Edições Afrontamento, 1996.

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Ritual de Casamento

Ritual de Casamento

Doris Stoehr Vieira de Souza – psicóloga – CRP 08/04871


Nesse momento é importante se voltar para o significado de ritual, uma vez que os ritos são meios poderosos para manter vivo o sentimento de pertença a um grupo, para conservar a adesão a seus modos coletivos, para unir mais estreitamente os seus membros e para afirmar e reforçar sua significação e sua estrutura (AZEVEDO, 1987, p.75-76).De acordo com SEGALEN (2002, p. 31-32): O rito ou ritual é um conjunto de atos formalizados, expressivos, portadores de uma dimensão simbólica.  O rito é caracterizado por uma configuração espaço-temporal específica, pelo recurso a uma série de objetos, por sistemas de linguagens e comportamentos específicos e por signos emblemáticos cujo sentido codificado constitui um dos bens comuns de um grupo…o ritual faz sentido, visto que ordena a desordem, atribui sentido ao acidental e ao incompreensível, confere aos atores sociais os meios para dominar o mal, o tempo e as relações sociais.Os ritos são um conjunto de comportamentos codificados, individuais e coletivos, com suporte corporal (verbal, gestual e de postura), caráter repetitivo e forte carga simbólica.  É fruto de uma aprendizagem, subentendendo a continuidade das gerações ou grupos sociais a que pertence.O etnólogo francês ARNOLD VAN GENNEP se interessou pela ligação entre rito e estrutura social e então apropria-se de uma série de manifestações relacionadas ao indivíduo, em ligação com seu ciclo biológico vital, seu ciclo familiar e desenvolve o conceito de ritual de passagem, onde o casamento é um deles.  Para ele, os ritos são compostos por seqüências ordenadas e não podem ser analisados isoladamente, ou seja, um rito ou ato social muda de valor e de sentido segundo ao atos que o precedem e aqueles que o seguem; e para compreende-lo é preciso sempre considerar cada elemento do conjunto em suas relações com todos os outros elementos. (SEGALEN, 2002, p. 44)Segundo SEGALEN (2002, p.44) num ritual sempre se distinguem três estados – separação, margem e agregação – de acordo com o ato celebrado.  O casamento é um rito de agregação uma vez que une duas famílias.  E entre cada um desses estados existe a etapa do estado intermediário.  Como exemplo aqui, o noivado, “com o objetivo de selar a aliança virtual entre as duas famílias e o casal poder ter maior liberdade de convívio”. (AZEVEDO, 1987, p. 53)Outro etnólogo, PIERRE BORDIEU propõe substituir o rito de passagem pelo rito de legitimação. De consagração, de instituição, onde evidencia o poder das autoridades que o instauram.  “É menos a passagem que conta, do que a linha que separa um antes de um depois, linha de diferença entre dois grupos preexistentes.  O rito não faz passar, mas institui, sanciona, santifica a nova ordem estabelecida”.  (SEGALEN, 2002, p. 50)Ou seja, quer o rito “institua” ou “faça passar”, ele não pode ser auto-administrado, “ele necessita de uma autoridade superior, seja a Igreja, o Estado ou um representante leigo do poder relativo à manifestação”.  (SEGALEN, 2002, p. 53)Neste momento lembro de vários casais que fizeram entre si algum ritual de casamento, sem ter o aspecto civil ou religioso, e mesmo assim, após algum tempo optaram por formalizar este casamento.O ritual é maleável, ou seja nele existe sempre uma certa margem de manobra de acordo com a época em que ocorre.A partir dos anos 70 a vida familiar sofreu grandes transformações, uma diz respeito a diminuição no número de casamentos.  Houve uma retirada da vida afetiva e conjugal do espaço público.  O casal passa a ter novas expectativas e se recusa a sofrer  interferência do Estado pois os parceiros passam a se sentir livres para acabar com o casamento quando tiverem vontade.  O compromisso passa a ser contratado pelos próprios parceiros.A coabitação é de toda evidência um fator maior da evolução do ritual de casamento…a maioria dos casamentos celebrados é precedida de um período de coabitação ou até mesmo de nascimento de filhos.  Aquilo que marcava o casamento de outrora, ou seja, a transferência da mulher para uma nova moradia, o acesso à sexualidade e ao estatuto de adulto são etapas sociais ultrapassadas já há muito tempo.  (SEGALEN, 2002, p.120)Surgem então estilos diferentes de ritual de casamento:  o “tradicional” onde o casamento se realiza sem coabitação prévia, com uma festa e uma cerimônia religiosa.  Os parentes têm um papel importante na sua organização.  Outra forma é a do casamento após a coabitação onde a festa e a cerimônia religiosa são mais raras, geralmente são organizadas pelo próprio casal com menor número de convidados.  Porém, alguns casais que já moram juntos exigem uma celebração religiosa, o que traduz um desejo de oficializar a união através de um rito simbolicamente forte, de conteúdo social reconhecido e apreciado pelos ascendentes.  E por fim, um outro modelo que é o de casamentos desritualizados, onde já nasceu um filho ou um dos cônjuges é divorciado.  A celebração é modesta, centrada nos cônjuges e amigos, muitas vezes realizada na própria casa do casal sem cerimônia religiosa.  (SEGALEN, 2002, p.120 -121)De acordo com LOPES et al (2006) há uma pressão social relacionada à existência do ritual de casamento e a função deste ritual é a de ajudar o casal a se ajustar a essa nova vida, a de casados, sendo que os comportamentos esperados em nossa sociedade são diferentes dos de uma pessoa solteira.  Marca também a passagem para a adultez e para a possibilidade de parentalidade.   Representa uma mudança de status na sociedade, onde o homem e a mulher passam a ser esposo ou esposa assim se comprometendo social e emocionalmente.ANTON (2002, p.29) afirma que:Um casamento implica mudanças substanciais, não apenas na vida do novo par, mas também na de suas famílias e, em uma certa extensão, na de seus amigos.  Lugares e funções modificam-se.  Filhos e irmãos passam a ser genro ou nora, marido ou mulher, cunhado ou cunhada.  Novas formas de funcionamento e autonomia consolidam-se.  Há escolhas e há renúncias.  Há ganhos e há perdas.  Há mudanças, e estas afetam a todas as partes mais diretamente envolvidas, seja por parentesco ou por afetividade.Segundo KROM (2000, p.31), o ritual pode produzir novas condutas, ações e significados e é um sistema de intercomunicação simbólica entre o nível do pensamento cultural e complexos significados culturais por um lado, e a ação social e o acontecimento imediato por outro. Ou seja, através do ritual podem haver grandes possibilidades de transformação, uma vez que ele pode combinar a comunicação analógica e digital e fornecer a oportunidade de expressar e experimentar o que não se pode colocar em palavras.  Assim, pode-se favorecer a reorganização de relacionamentos colaborando para modificações de aspectos relacionados à mitologia familiar.Aqui cabe citar CARTER e McGOLDRICK (1995, P. 129) onde afirmam que a família é veículo ativo nos ritos de passagem e que influencia e muito o resultado dessa passagem.Quando os membros da família conseguem manter seu olhar no processo familiar que contribui para o rito de passagem que está ocorrendo naquele determinado momento, assim como observar como esses processos funcionam durante o rito de passagem, está família está numa posição em que pode influenciar tanto a efetividade da passagem quanto o seu próprio sistema emocional.  (CARTER e McGOLDRICK, 1995, P. 129 – 130)Ainda afirmam que a época da organização do casamento é o melhor momento para a intervenção preventiva familiar, uma vez que os casamentos são as únicas cerimônias maiores organizadas pela própria família.  Ou seja, quem fará quais arranjos, quem será convidado, quem comparece, quem paga, quem fica aborrecido, etc, tudo isso reflete o processo familiar e nessa época muito se pode saber sobre o funcionamento do sistema (CARTER e McGOLDRICK, 1995, p.195).REFERÊNCIAS  ANTON, I. L. C.  Homem e Mulher:  seus vínculos secretos.  Porto Alegre:  Artmed Editora, 2002.AZEVEDO, T.  Ciclo da Vida – Ritos e Ritmos. São Paulo:  Ática, 1987.CARTER, B. e MCGOLDRICK, M.  As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar:  uma estrutura para a terapia familiar.  Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese.  2. ed.  Porto Alegre:  Artes Médicas, 1995.KROM, M.  Família e Mitos.  Prevenção e terapia:  resgatando histórias.  São Paulo:  Summus, 2000.SEGALEN, M.  Ritos e rituais contemporâneos.  Trad. Maria de Lourdes Menezes.  Rio de Janeiro:  Editora FGV, 2002.

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